Duas, entre muitas leituras necessárias: “O avesso da pele” e o “Pequeno manual antirracista”

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Não há cirurgia possível, como as estéticas, para o nosso comportamento. Para o bem e para o mal, nossa forma de agir não pode ser alterada assim. O que pensamos, refletimos, o nosso jeito,  compõe o valor da individualidade de cada ser: não há um exatamente igual a outro, entre os bilhões que somos. Compreender o significado disso pode ser decisivo nas nossas escolhas: o que queremos valorizar em nossa existência, quais caminhos queremos seguir, o que queremos ser e o que não queremos ser.

Há muito sobre nosso comportamento e nossas formas de aprendizado sendo elucidado – e o uso desse conhecimento é, no mínimo, delicado, quanto às possíveis finalidades – vide “O Dilema das Redes”.

Já é sabido, de muito tempo, que uma das formas de aprendizado é pela repetição. Há um poder nisso. Que o digam, como possível evidência, os mantras. Afirmações que ouvimos, formas de agir que presenciamos, situações que se repetem, podem acabar sendo – também indevidamente – naturalizadas. Pode parecer natural, em nosso país, termos grades nas janelas de casa, vivenciarmos a violência cotidiana, a desigualdade social e uma criança passando fome (sobre esse último ponto, aliás, recomendo fortemente o vídeo “do baú” de Mário Sérgio Cortella, no qual relata brevemente uma experiência que teve com caciques indígenas: https://youtu.be/nzHtOD5TKRM?t=418 )

Vemos e ouvimos repetições que se naturalizam. Em certa medida, isso pode ocorrer por terem uma relação com a realidade. Mas essa realidade é a desejada? É a única possível? Sempre foi assim? Terá de ser assim para sempre, ou até quando?

Aí chego num tema sobre o qual não tenho lugar de fala. Onde meu lugar necessariamente é de escuta, leitura, aprendizado. Porque não sofri e não sofro nada que se compare, por mais que minha origem seja humilde, com o racismo. Recorro, portanto, às minhas sugestões de leitura.

Jeferson Tenório, em seu romance O avesso da pele (Prêmio Jabuti na categoria de melhor romance literário de 2021), traz à tona uma história de preconceito, sofrimento e desastre – e infelizmente uma história cotidiana de muitas cidades brasileiras. A dor é mais intensa, quando está mais perto de nós. A história é ambientada em Porto Alegre, cidade onde o autor carioca reside.

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É um olhar diferente de outros olhares literários sobre a capital de nosso estado. Longe da leveza de Mário Quintana – e da brisa que reverbera em seus poemas – O avesso da pele mexe na ferida, nos apresenta uma cidade sob a perspectiva do racismo estrutural e toda a tragédia que dele advém. Um professor de escola pública, trabalhador, buscando sentido em sua missão. A história é reconstituída pelo seu filho, a partir das evidências e marcos que compõem o legado deixado pelo pai. Uma vida honesta interrompida por um crime praticado por uma estrutura pública – no caso, a polícia – contra um cidadão de bem.

Não bastasse o enredo envolvente e todos os elementos para uma experiência valiosa de leitura, há um outro aspecto que também precisa ser registrado, para além do romance. Por ter uma palestra agendada em uma escola na Bahia, o autor foi ofendido e ameaçado através das redes sociais. Sim, acredite se quiser! Desde xingões, palavrões, ameaças de ter seu “CPF cancelado”, até afirmações de que “teria que deixar o país ou seria metralhado”. Em um país que se deseja democrático, igualitário, com uma constituição considerada cidadã, um professor e escritor é ameaçado de morte… por ter escrito um romance!

Silenciar diante disso é omitir-se. Valho-me aqui, de outra sugestão de leitura, o Pequeno manual antirracista. Como muito bem nos explica Djamila Ribeiro, o silêncio nos torna cúmplices da violência, e ser antirracista é assumir uma postura incômoda! É muitas vezes ser tachado de chato, por não aceitar a existência de uma “naturalidade” na falta de cidadãos negros em ambientes e posições que devem ser de todos. Para além de compreender seus privilégios, os brancos também precisam ter atitudes antirracistas – não uma postura de culpa, que leva à inércia, mas uma postura de responsabilidade, que leva à ação.

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Da cultura que consumimos, às políticas públicas defendidas por quem votamos. O voto, eis uma atitude, uma escolha importante! Os autores que lemos, os ambientes de trabalho onde estamos inseridos  – e também as percepções racistas que temos internalizadas em nós. São muitos aprendizados necessários – por isso um manual é tão oportuno! Escrito por quem sente na pele as consequências de uma estrutura que a tantos exclui e violenta.

Quem sabe a repetição insistente da não aceitação, da denúncia, das exigências por mudanças. Quem sabe essas repetições possam contribuir para naturalizações diferentes, mais coerentes com os marcos legais que já foram construídos, às custas de muita luta. A título de exemplo, a Constituição da República, de 1988, onde consta, em seu artigo 5º, inciso XLII: “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”; e o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, “destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.”

Há muito o que aprender. Para mudar e fazer valer o que na teoria já foi mudado.

André Viegas Professor do Curso Técnico de Química Fundação Liberato

André Viegas
Professor do Curso Técnico de Química
Fundação Liberato

Sugestões de leitura:

Djamila Ribeiro. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 135 páginas.

Jeferson Tenório. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. 189 páginas.

Referências:

BRASIL. Lei 12.288, de 20 de julho de 2010. Institui o Estatuto da Igualdade Racial. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;

Canal do Cortela. Educação é uma maneira de esperançar – ano 2004 – Baú do Cortella #51. Vídeo do Youtube. Disponível em: https://youtu.be/nzHtOD5TKRM?t=418 . Acesso: 04 de maio de 2022.

GZH Geral: Escritor Jéferson Tenório registra boletim de ocorrência após ameaças de morte. 26/03/2021 12h32min; atualizado 18h45min. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2022/03/escritor-jeferson-tenorio-registra-boletins-de-ocorrencia-apos-ameacas-de-morte-cl17z9j8w001s0165jl3i6e7e.html#:~:text=Autor%20do%20premiado%20%22O%20Avesso,mensagens%20an%C3%B4nimas%20pelas%20redes%20sociais&text=O%20escritor%20carioca%20Jeferson%20Ten%C3%B3rio,de%20mar%C3%A7o%20pelas%20redes%20sociais. Acesso: 04 de maio de 2022.

O Dilema das Redes. Documentário. Direção Jeff Orlowski. 2020. Disponível na plataforma Netflix e no canal da Netflix no YouTube (sem legendas em português).

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