SIET: Três décadas de inquietações

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André Luís Viegas
Professor na Fundação Liberato
Coordenador do 25º SIET

A ambição de ampliar os horizontes e o alcance da educação pautada pela pesquisa. A escola não prepara para o mundo, ela é parte do mundo – e, como tal, a ele está integrada, a ele modifica, por ele é modificada. A impossibilidade de dissociação entre pesquisa e ensino é uma concepção já defendida pelo patrono da educação brasileira e por tantos outros estudiosos. Enunciados precisam de práticas que os coloquem em movimento, que, por sua vez, renovem, amplifiquem e atualizem as concepções iniciais – que também advêm da prática. As notórias contribuições da atividade de pesquisa no ensino profissional, na educação básica, alimentam nos protagonistas – professores, estudantes, gestores em educação – a necessidade de propagar sua importância, seu potencial.

Assim, no contexto onde a palavra globalização adquiria uso cada vez mais frequente, a Mostratec iniciou sua jornada como feira internacional. E, integrado à exposição das pesquisas, foi concebido o Seminário Internacional de Educação Tecnológica, o SIET. As participações dos estudantes e dos professores brasileiros em feiras de ciências fora do país se consolidava, com a afiliação da Mostratec à International Science and Engineering Fair (ISEF) ocorrendo no mesmo período.

Sem a pretensão de apresentar uma cronologia, corro o risco de trazer alguns elementos para reflexão – sabendo ser inevitável deixar escapar tantos outros, no mínimo, igualmente importantes.

Debater a educação tecnológica e as políticas governamentais na América do Sul, o ensino voltado para o mercado de trabalho e as tecnologias emergentes seria pertinente? O SIET já reunia os inquietos sobre essas questões em sua edição de 1998! As tecnologias emergentes à época – computador, internet, recursos de informática – não eram exatamente as mesmas que emergem neste 2023. Arrisco-me, mais uma vez, a sugerir que atualmente temos tecnologias derivadas daquelas. E, em comum, a busca pelo entendimento das inovações e de seus impactos na sociedade, na educação, no mundo do trabalho e em outras áreas de nossas vidas.

O compartilhamento de práticas pedagógicas dos docentes está presente desde as primeiras edições do evento. Entendemos que os princípios norteadores são essenciais e que a prática compartilhada movimenta esses princípios, enriquecendo nossos acervos e estratégias para o exercício da docência, permanentemente desafiada. Assim, também foram viabilizadas diversas edições do minicurso de metodologia da pesquisa para professores – oportunidades para ampliar a bagagem de saberes. Outro marco importante foi a realização do Intel Educator’s Academy, evento integrado que também celebrou os 20 anos de participação de projetos da Mostratec na ISEF, em 2013.

As contradições do cotidiano, a perspectiva ética do nosso fazer. As escolhas necessárias para mantermos as condições de manutenção da vida em nosso planeta – a tão mencionada sustentabilidade. Temática historicamente discutida, atualizada com elementos trazidos pela ampliação dos conhecimentos, pelas perspectivas das novas tecnologias em permanente desenvolvimento. Tecnologias construídas por pessoas, e cujo aperfeiçoamento necessita de gente que se dedique profundamente a diferentes especialidades – mantendo conflituoso equilíbrio com a formação ampla e abrangente. Desafios grandiosos, assuntos adequadamente recorrentes em diferentes tempos e horizontes, chegando ao evento integrado CIRReS – Congresso Internacional de Recursos Renováveis e Sustentabilidade, realizado em 2017.

O mundo do trabalho, a importância da formação empreendedora. As interfaces entre o trabalho e a escola. Encontramos essas preocupações já nas primeiras edições do SIET. Onde, com o quê, por que trabalharemos? A tecnologia onipresente, por seu lado, quanto ditará de nossas ações diárias e decisões de vida? Sua relação com o tempo livre e com a emancipação humana também já foi discutida por aqui.

A Mostratec e o SIET cresceram e mudaram de casa em 2009, passando a ocorrer na Fenac. Nesse mesmo ano, tendo o Brasil já participado da missão espacial Centauro, o primeiro astronauta brasileiro a viajar para o espaço, Marcos Pontes, veio compartilhar suas experiências com estudantes e professores. Horizontes em expansão, como o universo parece estar. Os anos seguintes consolidaram a ampliação da feira para o Ensino Fundamental e para a Educação Infantil e um crescimento do quantitativo de pesquisas de 220 para mais de 700!

Em uma jornada já longa e consolidada, estudantes-pesquisadores tornam-se profissionais, técnicos, engenheiros, docentes, disseminadores da pesquisa científica! Vimos nascer instituições que reuniram jovens cientistas em defesa da causa que marcou sua trajetória: a pesquisa na educação! A Associação Brasileira de Incentivo à Ciência (Abric) e o Cientista Beta emergem da necessidade – percebida pelos jovens – de ampliar e qualificar a pesquisa pré-universitária no Brasil. Vimos nascer empresas de base tecnológica em nosso estado, comandadas por profissionais que por aqui passaram. Registramos a presença de palestrantes e debatedores cujas consistentes trajetórias na pesquisa científica tiveram início em escolas da educação básica Brasil afora – marcada permanentemente pela participação na Mostratec e em outras feiras científicas.

E sobre a educação a distância… Certamente não é tema novo, visto que alguns consideram o livro impresso como um dos primeiros passos nessa direção, já em outros séculos. A informática, a internet, a era digital ampliaram esse panorama, sendo tema do SIET desde os anos 1990. Não há registros, entretanto, de qualquer previsão que essa seria a maneira possível – e segura – de manter a educação, as feiras de ciências e o nosso seminário em ação em duas edições. A pandemia impulsionou um processo já em curso – ao mesmo tempo marcando as possibilidades do mundo digital e a impossibilidade da frequência nos ambientes escolares. Novos e enriquecedores elementos de discussão e construção foram trazidos, emergindo no pós-pandemia. Possibilidades mais aprofundadas de processos híbridos, com as oportunidades de aprendizado no modo digital sendo aliadas ao modo presencial. Aprendizados e ensinamentos, valorizações e ataques à ciência, uma contemporaneidade heterogênea que requer um compromisso ainda maior com a alfabetização científica, fortemente pontuada na edição mais recente e na entrevista com a qual nos brinda o professor e pesquisador Dr. Fernando Spilki.

A capacidade de se reinventar é, possivelmente, uma das chaves para a longevidade. Novos espaços na programação, com maior atenção aos pesquisadores iniciantes, aos estudantes que estão dando os primeiros passos na pesquisa, compõem as renovações do evento. Também notamos a valorização dos três idiomas oficiais da Mostratec, com a proposta de mesas redondas em língua inglesa somando-se à programação que já contemplava os lusófonos e os hispanohablantes.

Sigo arriscando-me, ampliando a ideia de que falar sobre o SIET não é sobre uma cronologia de 30 edições. É sobre biografias daqueles que por aqui passaram: das dedicadas equipes organizadoras de cada edição, da inestimável contribuição de cada palestrante, do fundamental apoio de tantas instituições parceiras, do imensurável aprendizado proporcionado aos participantes.

O histórico desse evento é um patrimônio ao mesmo tempo contemporâneo e atemporal, pois as inquietações que originaram o Seminário tratam de perspectivas que continuam fazendo sentido – com novos questionamentos e com o reconhecimento de que muitas respostas, como é próprio da ciência, são temporárias e incompletas.

É sobre estarmos dispostos a escutar, a aprender, a construir novos caminhos. É, sobretudo, uma atitude de humildade, de reverência ao conhecimento, de cuja construção ansiamos por fazer parte.

Convido você a mergulhar conosco nessa jornada!

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